Em mais um dos clássicos de Nelson Rodrigues adaptados para o Cinema, o segundo feito por Jabor, vemos seus temas recorrentes: incesto, traição, perversões e indefinições sexuais.
Glorinha (Adriana Prieto) está prestes a se casar com Teófilo (ator não creditado, que só aparece na cena final na igreja), e tem de lidar com as neuroses da mãe, Eudóxia (Mara Rúbia), e do pai, Sabino (Paulo Porto), rico dono de uma imobiliária e, aparentemente, muito conservador.
Conservador para a sociedade, pois Sabino tem um caso com sua secretária Noêmia (Camila Amado) e tenta seduzir a própria filha Glorinha, em meio a desejos homossexuais de experiências que teve na adolescência. Enfim, um poço de perversões.
Faltando 2 dias para o casamento, em meio a todos os preparativos, Dr. Camarinha (Fregolente), ginecologista e amigo de toda a família, resolve advertir o pai da noiva: vira Teófilo aos beijos com seu assistente de consultório, José Honório (André Valli), que durante a noite se travestia.
Sabino, ao contrário do que imaginou Dr. Camarinha, não se abala com a notícia, e passa o tempo todo afirmando que “o importante é o casamento”, para que se acabe toda essa palhaçada de que ele faz parte.
O tom crítico e ácido de Jabor é visto em todo o filme, com críticas veladas ao governo e à ditadura militar vigente na época, com cores ainda mais exacerbadas pelo texto sem rodeios de Nelson Rodrigues.
Curiosidades:
Camila Amado é premiada no Festival de Gramado com o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante.
Imitando a arte e as tragédias de Nelson, Adriana Prieto (25) morre num acidente de carro na véspera de Natal, antes de o filme estrear. Numa sequência do filme, Adriana tem um pesadelo e sonha que morre depois de ter um aborto.
O sonho foi filmado no mesmo lugar onde ela estaria morta realmente 7 dias depois, no hospital Miguel Couto no Rio de Janeiro (RJ). Ela seria colocada na mesma mesa do necrotério onde aparece o namorado dela no filme, que também morre num desastre. Sua voz no filme foi dublada também pela atriz Norma Blum.
As cenas de enchente no início e fim do filme são de uma inundação real ocorrida no Rio de Janeiro em 1966.
O próprio Jabor tem medo das coincidências trágicas do filme: vários atores do elenco morreram pouco depois; o dono da casa onde foi filmado faleceu logo após também; o técnico de som morreria aos 28 anos por um ataque cardíaco; e o produtor do filme, Sidney Cavalcanti, suicidou-se aos 27 anos de idade. Um filme com uma aura macabra.
O filme foi distribuído para toda a América Latina, Bélgica, Espanha e Portugal.
Representou oficialmente o Brasil na Quinzena dos Realizadores de 1976 em Cannes (França) e no Festival de São Francisco também em 1976 (EUA).
Nelson Rodrigues utilizou o pseudônimo Susana Flag para lançar o texto.
A versão em DVD, lançada em 2003, tem 96 minutos, 15 minutos a menos que o original que possui 111 minutos de duração.
Lekitsch, Stevan. Cine arco-íris: 100 anos de cinema LGBT nas telas brasileiras (Portuguese Edition) (pp. 64-65). Edições GLS. Edição do Kindle.

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