FILME: Um Dia de Cão (1975)

FILME: Um Dia de Cão (1975)
O que este filme está fazendo aqui? No filme, a resposta está na primeira cena. Aqui, a resposta está no terceiro parágrafo.

Dois amigos, Sonny (Al Pacino) e Sal (John Cazale) resolvem assaltar um banco. No meio do assalto, a situação sai do controle e eles acabam passando o dia todo e a noite dentro do banco com alguns reféns, tentando negociar uma fuga segura.

Você pode se perguntar: o que esse filme está fazendo aqui? Um detalhe que pode passar despercebido: o assalto cometido por Sonny visa arranjar dinheiro para pagar a operação de mudança de sexo de seu companheiro Leon. 

Ou seja, o personagem interpretado por Pacino é homossexual. E sabe quem faz o papel de Leon, o amante de Al Pacino? Ninguém menos que Chris Sarandon (ex-marido de Susan Sarandon em seu 1o. filme) – o mesmo irresistível vampiro de "A Hora do Espanto" (1985) – indicado inclusive para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. 

Apesar de o filme não ter uma atmosfera leve, a interpretação de Pacino é soberba, assim como a de seu amigo, quase autista, John Cazale. 

Disponível nos streamings Amazon Prime Vídeo , AppleTV e YouTube .




Curiosidades (muitas):

A ideia original era de intitular o filme "Boys in the Bank", uma paródia do filme de temática LGBT+ "Boys in the Band" de 1970.

Ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original. 

O filme foi baseado numa matéria policial de uma revista. O assalto foi real.

Embora inicialmente tivesse concordado em interpretar Sonny, Al Pacino disse a Sidney Lumet, perto do início da produção, que não conseguiria fazê-lo. Pacino acabara de concluir as filmagens de "O Poderoso Chefão: Parte II" (1974) e estava fisicamente exausto e deprimido após as gravações, e não estava nada animado com a ideia de se esforçar até um estado de quase histeria todos os dias. Lumet, contrariado, aceitou a decisão do ator e enviou o roteiro para Dustin Hoffman. Segundo relatos, Pacino mudou de ideia ao saber que seu rival estava sendo considerado para o papel.

Al Pacino deixou o bigode crescer inicialmente como uma forma de lidar com o fato de estar interpretando um homem gay. O bigode era moda na época. Nas palavras de Sidney Lumet, no entanto, o bigode de Pacino "estava horrível". E após o primeiro dia de filmagens, Pacino concordou. Assistindo à gravação, Pacino disse a Lumet: "O bigode tem que ir embora", e perguntou se poderia raspá-lo e refazer as cenas daquele dia. Lumet concordou e o bigode desapareceu — assim como um dia inteiro de filmagens.

Grande parte dos diálogos do filme é improvisada, embora a estrutura do roteiro original seja totalmente respeitada. Após 3 semanas de ensaios com o elenco, Sidney Lumet incorporou as improvisações desses ensaios ao roteiro oficial.

Durante a produção, Al Pacino supostamente dormia apenas algumas horas por noite, comia pouco e às vezes tomava banhos frios; isso para enfatizar a aparência desgrenhada, exausta e, ao mesmo tempo, agitada de Sonny.

John Cazale foi escalado por insistência de Al Pacino, apesar de não ter nem perto da idade do verdadeiro Sal, que tinha 19 anos na época do assalto. Sidney Lumet era contra a ideia porque o ator era claramente inadequado para o papel. No entanto, quando Cazale fez o teste, Lumet se convenceu em 5 minutos.

O verdadeiro Sonny, chamava-se John Wojtowicz, e conheceu Elizabeth Deddie Eden, uma mulher transexual, em 1971, em uma festa italiana, na cidade de Nova York. Wojtowicz e Eden se casaram em 4 de dezembro do mesmo ano.

Elizabeth Eden (Leon no filme) fez a cirurgia de transição, paga por Wojtowicz com os US$ 7.500 mais 1% dos lucros líquidos que ela recebeu pelos direitos de adaptação cinematográfica de sua história. Ela morreu de complicações da AIDS em 1987, aos 41 anos.

Segundo a autobiografia de Al Pacino, no roteiro original, a amante transexual de Sonny iria ao banco vestida de Marilyn Monroe e eles se beijariam em frente à multidão reunida. Pacino achou essa cena completamente irrealista e convenceu Sidney Lumet a substituí-la pela cena do telefonema, que não foi roteirizada e sim totalmente improvisada.

O verdadeiro assaltante de bancos, John Wojtowicz, assistiu a O Poderoso Chefão (1972) para se inspirar no dia em que assaltou o banco Chase Manhattan. Al Pacino estrela ambos os filmes.

O outro assaltante chamava-se Salvatore Antonio Naturile (por isso o nome Sal). Ele e Wojtowicz se conheceram no Danny's, um bar gay na 7a. Avenida Sul, na parte baixa de Manhattan, em Nova York (EUA).

Sal repreende um dos caixas do banco por fumar, dizendo que não fuma porque "não quero ter câncer". John Cazale, o ator, um fumante inveterado, morreu de câncer de pulmão 3 anos depois.

James Broderick, ator que faz um dos policiais que negociam com Sonny, levou seu filho de 12 anos, Matthew Broderick, ao set de filmagem para conhecer Al Pacino e o diretor Sidney Lumet. Mtthew se tornaria ator poucos anos depois, fazendo um dos clássicos da filmografia LGBT+: "Essa Estranha Atração" (1988) (também no livro) e o eterno "Curtindo a Vida Adoidado" (1986).

Harvey Fierstein, que escreveu e protagonizou "Essa Estranha Atração" (1988), aparece entre os figurantes como um dos manifestantes gays, sem aparecer seu nome nos créditos.


Lekitsch, Stevan. Cine arco-íris: 100 anos de cinema LGBT nas telas brasileiras (Portuguese Edition) (p. 72). Edições GLS. Edição do Kindle. 


Comentários